Momento desabafo

Corrupção endêmica e o Brasil de paradoxos

Galera querida de meu coração! Os dois últimos dias foram difíceis.. foram muito pesados! Queria ser um ser alienado, pois a alienação é um excelente ópio quando a sua vida é estável e relativamente confortável. Mas eu não consigo ser, nem me calar, nem somente aceitar.

Bom, há problemas pessoais me afligindo, há um certo grau de descrença em relação às pessoas e à maneira com a qual elas lidam com o sentimento das outras. Há problemas também em relação ao meu trabalho. Há problemas em relação a meu País! E feitas as devidas análises, percebi que há um problema generalizado e que tudo está intimamente conectado, não é algo isolado a um evento, mas é um fenômeno que duramente tenho que admitir existir.

Vou reservar-me ao direito de não ser muito específico em relação aos problemas pessoais e às decepções que as pessoas próximas (ou nem tanto) me trazem. Quero falar primeiro de meu trabalho. Em dois anos de MPT estive em fase de “lua de mel”. Faço um trabalho sério, comprometido, reconhecido, em que cria piamente e defendia com o suor de meu rosto e as batidas de meu coração entusiasta. Porém, há algum tempo, venho sentindo a força do sistema de castas organizacionais e da forte crise de ego que assola o MPU. Aqui impera uma divisão peculiar entre membros (os procuradores) e os servidores (grupo no qual me incluo).

Tenho forte orgulho de minha história e sim, não fiz Direito (e não quero fazer), mas Administração. Eu estudei muito, lutei à beça e fiz concurso. Sinto-me honrado de ocupar uma posição por mérito exclusivamente atribuído a mim e claro, a todas as pessoas-chave que contribuíram ao meu caráter e formação. Porém, daqui de dentro, vejo que as coisas são muito diferentes. Não acho que ganho mal não. Acho que ganho muito bem, mas existe uma coisa chamada EQUIDADE. O fosso salarial é imenso entre membros e servidores e, os primeiros, além de receberem quantias bem elevadas (o que nem questiono tanto), são beneficiados com uma série de prerrogativas, que não são típicas de uma País sério (aqui já tangencio outro problema, o Brasil). Os digníssimos procuradores criam diversas medidas para se esquivarem do teto, o que torna o Judiciário e o Minístério Público “uma casa muito engraçada”. A alusão pueril é somente artifício ou eufemismo para aliviar a realidade em que estes senhores recebem auxílio-moradia (no valor do salário de técnico) tendo casa para morar, em que recebem ajuda de custo exorbitante por tudo e mais um pouco, em que Iphone 6 é dado com conta paga, em que salas imensas são gabinetes que não equivalem às salas em que se acotovelam diversos servidores. Tamanha desigualdade é a cara do Brasil. E a gente se acostumou a aceitar desde 1500 toda essa realidade opressora, legitimando uma dominação que, ainda que seja tradicional, não é nada moral, nem racional. Mas tudo é legal! Legal ainda que imoral é invenção tipicamente brasileira, ao que tudo indica…

Por que os dois últimos dias foram péssimos, sem considerar os eventos de ordem íntima? Bem, ajudas de custo e auxílios moradias precisam ser pagos, certo? Sim! Mas a que custo? Demitiram boa parte de nossos estagiários em um dia, logo após uma reunião. No outro dia, outra leva. Todos os estagiários da área administrativa estão indo embora. Alguns pagam faculdade com a renda que recebem e até sustentam família, pagam aluguéis. Mas não para por aí… com o País em crise, as copeiras também serão mandadas, muitas senhoras que sustentam famílias e não conseguirão facilmente uma colocação no mercado, se é que conseguirão. E os garçons também. Ah, e não tem verba para passagens, diárias, cursos e capacitações. Se tudo fosse planejado e em razão da crise nacional, tudo bem. Mas não! Isso é para pagar o sistema patrimonial de benesses de pessoas comuns, feitas da mesma matéria que eu, você e cada um dos estagiários e terceirizados. O que faz de nós diferentes para sermos tratados de maneira tão desigual? Cadê a humanidade dos detentores de poder? Qual o papel institucional do Ministério Público do TRABALHO? Se aqui é assim, não quero nem pensar em todo o resto. E tem mais um detalhe: por medida provisória, créditos extraordinários de milhões foram autorizados para a ajuda de custo. Além disso, acabamos de nos mudar para um prédio luxuoso, que, acredito eu, é desnecessário para o exercício de nossa função. Não tem que ser assim!

Ontem eu chorei…. chorei muito! Chorei por cada um que estará sexta-feira desempregado, mas chorei por nossa condição humana neste país rico, em que tudo germina, de ampla variedade de raças e credos, mas que a coisa não avança. Chorei pela chaga histórica aberta e pelo comodismo de cada um, inclusive o meu. Chorei por minha impotência, pelo meu trabalho, pois como posso falar em Gestão por Competências para um povo descrente na própria instituição? Qual o sentido de minha função pública? Eu sirvo a quem? Deveria ser à sociedade, mas não creio estar a atingindo. Por que todos vão às ruas pedir impeachment da presidenta, mas esquecem da corrupção latente na atitude dos brasileiros e em cada instituição pública, de todos os Poderes constitucionalmente estabelecidos? Por que elegemos heróis como o Juiz Sérgio Moro quando ele faz somente aquilo que todos em sua condição naturalmente deveriam fazer? É O TRABALHO DELE!!!! Porque aceitamos como natural o errado, o padrão reprovável, a corrupção. Todos deveriam brigar pela diminuição desse sistema de benesses a alguns agentes públicos. Mas o que todos querem, e eu sei bem, é fazer parte e levar o seu quinhão da infindável fonte de rendas que é o setor público. Enquanto digito tudo isso, sou acometido por um forte sentimento de revolta, por um choro contido, que não consegue mais fluir pelo tanto que já rolou. E são muitas perguntas que se calam profundamente em meu peito.

Somos rasos em nossas relações. Somos alheios aos deveres do cidadão. Somos pouco comprometidos com aqueles que não nos são próximos. E o País segue, em passos de formiga, sem vontade, e é muito ruim… é péssimo! O que eu consigo fazer? Como nós podemos agir? Deem-me uma luz, qualquer que seja, mandem um vagalume que seja para iluminar o escuro dia de outros tantos de um futuro negro que se descortina.

Preciso achar meu lugar no mundo, meu propósito, resgatar minha autoestima e força para lutar. Amo quando estou em sala de aula porque sei o quanto depositam em mim algum tipo de esperança. E nisso encontro lampejos de felicidade para continuar. Sei que de alguma forma inspiro, sou inspirado e ganho sopro de vida. Antes de ontem, triste como estava, dei aula e recebi uma mensagem linda, de uma aluna que adoro. Ela dizia que eu estava feliz, que dava para sentir na aula e que o material que eu reformulei estava ótimo. Fiquei bem contente, mas feliz eu estive durante aquele momento mágico em que eram, eu, eles e o nosso sonho de prosperidade. Logo no outro dia, ao final de outra aula, depois do pior dos dias de corte e choro, iniciando uma nova turma, encontro outra aluna querida (na verdade elas duas passaram a ser amigas) e ela me abraçou forte (quase chorei). Falou que eu a inspirava e que passou a amar Administração depois de minha aula, questionando-se acerca do porquê de ter feito Contabilidade e não Administração. Eu quero seguir, não quero desistir, quero inspirar e não desanimar, mas meu coração está cheio de dor e de decepção. A esperança está minada e o desejo é de simplesmente fugir e deixar tudo para trás para me aventurar em outras terras, em que haja mais igualdade, justiça e solidariedade. Não quero encontrar uma depressão. Quero sentido para minha vida. Mas o que posso fazer?

 

Texto publicado em 16/03/2016

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