O que aprendi

INDIGO

Hoje eu tive o imenso prazer de almoçar com uma querida amiga, a Ritinha. Como sempre, conversar com ela foi um aprendizado de vida, foram atos de carinho e relatos de amor. Nos conhecemos há muito tempo, quando a maior parte de nossas conquistas eram meros desejos caros, sonhos distantes e até então, quase inatingíveis. Devo confessar que, se comparado ao que pensávamos, alcançamos até bem mais, graças a Deus. Bem, mas hoje não quero falar da gente não. Quero falar de sua filhinha mais nova, da Yasmin. Vejam o relato que a Ritinha me ofertou e que me tocou profundamente.

Segundo ela, sua filha de seis aninhos disse que tinha uma nova amiga. Sempre que descia para brincar no condomínio, pedia algo para a mãe ou para quem fosse. O pedido era dobrado: descia com duas maçãs, com duas balinhas, com duas bolachas… a justificativa repetia-se constantemente. Era um para ela e outro para a amiga!

Depois de algum tempo, já curiosa para conhecer a nova amiguinha, Ritinha começou a querer saber de quem se tratava a criança. Claro que o encantamento e o cuidado sempre dispensados pela filha fez crer se tratar de uma menininha não menos especial que a Yasmin. A essas alturas, sua filha mais velha já sabia quem era, apesar de nada ter dito à mãe. Amanda queria guardar um segredo bem precioso…

Eis que em um dia desses qualquer, quando foram sair, Yasmin avistou com a mãe a tal amiguinha. Amanda olhou sorrindo, mostrou para mãe e disse: “tá vendo só, essa é a amiguinha da Yasmin”. Rita teve um momento súbito de estranhamento. Ficou muda, não sabia bem o que falar ou como agir, bem diferente de Yasmin, que fez festa ao ver a amiguinha e, na natureza do coração puro, foi ao seu encontro com um cordial e encantador cumprimento. Para a surpresa de Rita, a amiguinha era uma senhora, que deve ter por volta dos oitenta anos!

Segundo minha amiga, sua voz faltou e um nó veio à garganta. Ela bem conhece a filha, mas sua pureza e amor nunca deixam de surpreender. A senhora disse à Rita que a Yasmin costumava se sentar ao seu lado no banco, dividia seus lanches, conversava bastante e para ela, fazia sempre companhia. Disse mais: “sua filha é um anjo, um presente, uma raridade”. Ao ouvir o relato, assim como Rita ao me contar, marejei os olhos. Senti um arrepio na espinha e um afago no peito, daqueles sentimentos de otimismo e satisfação em ouvir tão despretensiosamente um presente em forma de conto.

Ao desenrolar do causo, começamos a pensar em seus desdobramentos. Yasmin é pureza! Na verdade, pura emoção. Sabe que isso me trouxe a lembrança de mim mesmo e Rita disse se ver ali representada também. E nos demos conta de que, por mais lindo que seja esse sentimento atemporal de amor e cuidado, pessoas assim tendem a sofrer um pouco mais, pois o mundo nem sempre é um lugar amistoso para a nobreza da alma. Pensamos também acerca da perda… no quanto vai ser difícil a despedida inevitável no curso natural da vida, pois a finitude é uma realidade que nos sonda constantemente. O que dizer à Yasmin quando lá no playground do condomínio a amiguinha não mais estiver?

Sei que tudo isso foi uma pílula de otimismo para meus atuais dias pensativos e melancólicos. Dá para ter esperança no porvir, nos índigos infantes que prenunciam a boa nova, responsáveis por um mundo mais justo e por uma realidade com mais ternura. Peço a Deus em oração que multiplique as Yasmins. Peço também que a opressora sistemática atual, cheia de isolamentos, padrões e egoísmos não corrompa esse tão puro coração. Porque nenhuma criança nasce intolerante, nem com preconceito, nem violenta ou má. Elas nascem anjos e alguns mantêm suas asas, voando além da maldade humana…

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