Momento desabafo

O GRITO DOS BONS

Abaixo à ditadura da felicidade, que atualmente nos prega que no esquadro do aplicativo de retratos, cabem somente sorrisos e corpos sarados. Cansado dos padrões, dos auto anúncios, da conta de sorrisos em likes e followers, da propagação de um jeito certo de ser quem é, que sempre depende de aprovação. Alegria é para ser vivida, não par ser comercializada. Fico triste sim, choro, lamento, me canso. Deixo de dormir, comer (ou me acabo no chocolate), sorrio bastante, mas não sou só sorrisos. Minha família tem problemas, passo por desilusões amorosas, já fui rejeitado, às vezes falta grana, tenho a obrigação de ser honesto e sincero, mas já menti muito. Raiva, gostaria de ter com maior permanência e intensidade para não esquecer do mal quando me fazem. Mas valorizo o perdão divino e não sou adepto de levar nas costas grandes cargas e nem desejos de vingança. No fim, compensa bastante… mas o que importa? Só digo, pois ilustra o que de mais normal há em qualquer um e isso não vai mudar o mundo.

Temos uma crise grave de governabilidade e de governança em nosso país. No mundo, erguem-se forças de intolerância e ódio. Bombas com potencial destrutivo inenarrável poderiam por fim, em instantes, a toda forma de vida. Líderes mundiais têm respaldo e legitimidade para professar o lado negro dos recônditos do ser sem cerimônias. Por todo lado, tanta coisa, gera uma descrença enorme na humanidade e em seu curso. E você ainda acha que reside em você o epicentro do universo? Fazer das redes sociais um diário também não resolve o seu problema ou os males do mundo.

Parece mesmo que antes de toda grande transformação (tenho fé que ela está em curso) há um enorme furacão entrópico, aquecido e estimulado pela onda de egoísmos que assolam os corações dos que estão ocupados demais em parecer plenos e perfeitos. E a tempestade torrencial da ira do universo rega a face de todos, responsáveis ou não. Então, por favor! Diante de tantas agruras e cataclismas, qual é a sua posição? Quando é que cada um vai tentar ser uma versão melhor de si para o mundo? Não estou falando de um modelo ideal, mas honesto consigo e com os outros. O mundo precisa de coragem para rasgar o véu da hipocrisia e fazer da alegria um sentimento coletivo e direito de cada ser. Entre tantas lacunas de solidariedade, comida e dignidade deveriam ser direitos universais, mas a África, em sua grande parte, está longe de ter o mínimo.

Que os vilões mostrem a cara e os bons tomem ciência de seu papel. E que tenhamos consciência de que é impossível ser ou um, ou outro. Temos um pouco de cada. Tudo são escolhas. Não sejamos modelos, mas aquilo que determina o self para além do ego. Que não sejamos produtos para não arcarmos com a dissonância pesada entre o ideal e o real. E que tenhamos noção de que a pior mentira é aquela que contamos a nós mesmos. Reproduzi-la constantemente, a ponto de acreditar, não a torna verdade. Saiba também que entre dois polos, a real verdade mora em um mundo obscuro entre nós e os outros. Diante de tantos “ismos”, o do ego é o que mais tem reflexo em desgraças como mensalões, desastres naturais, desvios, corrupções, intolerância, guerras. Não basta ter autopiedade. O altruísmo de se colocar no lugar dos outros personifica a empatia necessária em todas as relações existentes. Sem ele, dificilmente venceremos nossos males e os do mundo.

E se você acha que só ser bom basta, termino com o que disse Luther King: “O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons”.

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